Na Grécia como os gregos – no resto do mundo eu como quem eu quiser.

Sermão de Areópago em Atenas, por Rafael, 1515.

Epimênides foi um grego nascido em Cnossos, na ilha de Creta e viveu em meados de 600 anos a.C.

Esteve em Atenas e, conforme escritos de Diógenes Laertius, livrou a cidade de uma praga.

Epimênides era chamado de “homem estranho” por ser um dos poucos da sua época que criam em apenas um Deus. Nessa época, os deuses gregos em Atenas passavam de trinta mil, sendo em número superior ao das pessoas que viviam na cidade.

Quando Atenas foi acometida por essa praga, que não sabemos qual era, foram chamados sacerdotes egípcios e babilônicos para resolver o problema, sem nenhum sucesso.

Foi então que alguém se lembrou do Deus único de Epimênides e mandaram chamar o cabra.

Ele chegou botando banca e duma forma que ninguém entendeu direito, resolveu o problema.

O importante da história é que, no lugar que Epimênides adorou a esse Deus, Atenas construiu um altar e como não sabiam o nome da divindade, nomearam-no ao Deus Desconhecido.

Seiscentos e tantos anos mais tarde, Paulo, aquele moço do qual já falamos aquiA caminho de Damasco

se encontra no Aerópago de Atenas discursando ao povo.  Aerópago era um tribunal a céu aberto onde se debatia política e assuntos religiosos. Um congresso grego sem o Niemeyer.

Paulo falava aos filósofos epicureus e estoicos tentando estabelecer uma continuidade entre filosofia e cristianismo.

O livro da Bíblia que trata dessa passagem é Atos dos apóstolos, especificamente capítulo 17 15-34, livro escrito pelo próprio Paulo, então o que sabemos do fato é o que Paulo contou.

Fica muito clara, inclusive, a opinião dele sobre os gregos e seus filósofos no versículo 21, in verbis:

(Pois todos os atenienses e estrangeiros residentes, de nenhuma outra coisa se ocupavam senão de dizer e ouvir alguma novidade)

Chamou Atenas todinha de desocupada e fofoqueira.

Diante da resistência dos filósofos em aceitar sua doutrina —  chegaram a chamá-lo de paroleiro — Paulo manda essa:

“…passando eu e vendo vossos santuários, achei também um altar em que estava escrito: AO DEUS DESCONHECIDO. Esse, pois, que vós honrais não o conhecendo é o que vos anuncio.”

Numa encaçapada só, Paulo arrasta para si a postura de conciliação entre filosofia e cristianismo, sem a qual ele não teria conseguido, inclusive, adesão de pensadores atenienses do quilate de um Clemente de Alexandria, décadas mais tarde.

Paulo se apropriou de um altar de adoração já existente para disseminar uma nova doutrina. Pois não há como destituir o sagrado entendido como tal senão dando a ele continuidade numa ideia de desenvolvimento e plenitude.

Epimênides dizia, sempre às quartas-feiras, quando chovia: “Cretenses, sempre mentirosos.” Isso porque ele morreu sem conhecer os nativos de Tarso.

A voz dos profetas

“A Adoração dos Magos”, 1270, tempera sobre madeira,
do pintor italiano Guido da Siena (c.1230-c.1290),
Museu Lindenau, Altenburg, Alemanha.

Os reis magos vieram do oriente procurar pelo Rei dos Judeus que havia nascido na Judéia. Viajaram guiados por uma estrela, mas não tinham a localização precisa.

Passando por Jerusalém, resolveram perguntar a Herodes, o rei da Judéia, onde estava o menino que havia nascido para ser o Rei dos Judeus.

Inocência, imbecilidade ou afronta? Jamais saberemos.

Fato é que Herodes disse: Não sei a localização, mas, se encontrarem, passem por aqui na volta que eu também quero prestar minhas sinceras homenagens a um menino que dizem ser rei no meu território.

Os reis magos seguiram viagem, avistaram novamente a estrela que indicava o local e conseguiram chegar ao lugar do nascimento de Jesus.

Na volta, foram avisados em sonho que não retornassem pelo mesmo caminho e não avisassem Herodes.

Também por sonho, José é avisado que Herodes irá procurar o menino para matar e recebe ordem de fuga da família para o Egito.

Vendo que havia sido iludido pelos reis magos do oriente, Herodes se enfurece e manda matar todos os meninos – de Belém e de todas as cidades ao redor – de dois anos ou menos.

Pausa para relembrar.

Sobre a concepção de Maria já falamos aqui:Zacarias e as primas

Com o apoio do profeta Zacarias, casado com sua prima Isabel, Maria precisou de uma saída criativa para sua situação, já que a saída usual era a pena de morte por apedrejamento.

Sozinha, ela não teria a menor chance, mas apoiada por um sacerdote e seu noivo José, fundamentados em profecias centenárias, eles poderiam reverter o quadro em seu favor. Para isso, teriam que sustentar a história por toda a vida.

Aqui, neste episódio da fuga para o Egito, lanço uma severa desconfiança sobre José.

Ao chegar em Belém, na visita ao menino, certamente os reis magos mencionaram a passagem por Jerusalém e a fala de Herodes. José e Maria sabiam dos riscos que corriam. Aliás, sabiam dos riscos que todas as crianças recém-nascidas corriam a partir desse dia e mesmo assim fugiram para o Egito sem avisar ninguém. Sem sequer tentar salvar outra criança.

Por quê?

Para que uma história baseada em profecias tenha credibilidade, é necessário que as profecias se cumpram.

Para este episódio, havia a profecia de Jeremias, que dizia:

Em Ramá se ouviu uma voz, lamentação, choro e grande pranto; era Raquel chorando seus filhos e não querendo ser consolada pois já não existiam.  Mateus 2:18

Essa profecia é citada na Bíblia, na sequência do relato de Mateus da visita dos reis magos como parte integrante dele. José e Maria, apoiados pelo sacerdote Zacarias, haviam dito que aquela criança era sagrada. Nasceria Rei dos Judeus cumprindo a profecia de Isaias. Agora nascida, era o momento de outras profecias se concretizarem.

A fuga da família para o Egito e a subsequente matança dos meninos por Herodes tornou verdade a voz do profeta Jeremias.

O relato de Mateus segue informando a morte de Herodes e a decisão da família de retornar para a terra de Israel. O último versículo do capítulo 2 diz, textualmente:

E chegou e habitou numa cidade chamada Nazaré, para que se cumprisse o que fora dito pelos profetas: Ele será chamado Nazareno.

Era mais uma profecia que a sagrada família fazia cumprir. Maria não apenas gerou um rei. Ela personificou várias profecias e dedicou a sua vida a tornar o reinado de seu filho autêntico, crível, real e incontestável, pois qualquer vacilo poderia significar a morte por apedrejamento e a pena não prescrevia. Por tudo isso, Maria é meu personagem favorito dessa saga humana fantástica chamada Novo Testamento.

Jó, um estudo de caso

Jó e sua familia – William Blake

Havia um homem na terra, cujo nome era Jó.

Jó era rico, tinha sete filhos e três filhas, temente a Deus e queridinho do Senhor.

Em um dia específico, quando os filhos obedientes de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor, Satanás achou por bem vir junto.

– De onde vens, criatura? – pergunta Deus.

– De rodear a terra e passear por ela! – responde Satanás, que era terrabolista.

– Viste Jó? Aquilo me ama!

– Mas também, rico! Até eu. Tira tudo que ele tem bota o cabra na fila do auxílio emergencial, os bacuri na escola pública e corta a conta da mulher dele com o turco mascate pra tu ver uma coisa! Não dou três dias e ele blasfema contra ti.

– Mas, nem!

– Bota na minha mão e te mostro!

– Vai lá. Arregaça. Mas deixa ele vivo!

– Formô!

No outro dia, estava Jó posto em sossego, os filhos tinham ido jantar na casa do primogênito, entra um mensageiro correndo:

– Os sabeus – um povo semita, lembra da rainha de Sabá? –  atacaram os rebanhos, tomaram os bois e os jumentos e mataram todos os servos! Só escapei eu!

Moleque não tinha nem terminado, entra outro esbaforido:

– Jó, do céu! Caíram do céu bolas de fogo e queimaram as ovelhas e os pastores tudo! Só eu escapei!

Outro entra correndo:

– Três bandos de caldeus tomaram o rebanho de camelos e matou todos os servos com espadas. Só eu escapei!

Mais um:

– Tuas filhas e filhos estavam comendo e bebendo vinho na casa de seu primogênito e um vento forte derrubou a casa sobre eles. Só eu escapei e trouxe a notícia.

Satanás, pelo visto, estava poupando só o mensageiro, doido pra ver o circo pegar fogo.

Jó se levantou, rasgou sua roupa, raspou sua cabeça e disse:

– Nu saí do ventre da minha mãe e nu voltarei para lá! – O pessoal não tinha educação sexual nas escolas e mesmo velho e barbudo Jó ainda não dominava as parada da reprodução.

Lançou-se ao chão e adorou:

– O Senhor deu, o Senhor o tomou, bendito seja o nome do Senhor!

– Feladapóta! – rosnou Satanás.

Deus rolava de rir da cara do Capeta:

– Te falei!

– Mas também, né?

– O quê?

– Tem saúde.

– Ah, mas vá paporr…

– Deixa na minha mão pra tu ver! Vai xingar até tua mãe!

– Já falei pra não botar a mãe no meio!

– Boto no meio da tu…

– PÁRA!! Quer testar Jó tirando a saúde dele? Vai, pode ir! Maizó: não mata!

– Xá comigo!

Então Satanás feriu a Jó com uma chaga maligna da planta do pé até o alto da cabeça.

A coceira era tanta que Jó se coçava com caco de telha.

A mulher de Jó, que não aguentava mais aquela presepada, dizia:

– Tu ainda tá de bem com Deus, Jó? Larga mão de ser tonto!

– Tu é doida, mulher? Eu não recebi de Deus o bem, por que não receberia o mal?

A mulher de Jó só olhava, imaginando onde estava com a cabeça quando se casou com tamanho paspalho.

Os amigos de longe, que todo ano vinham passar uma temporada, chegaram e quando viram a situação de Jó e a despensa e adega va-zi-os desataram a chorar.

Tudo tem limite. Jó não se conteve e amaldiçoou o dia em que nasceu.

Elifaz, um dos amigos, vendo aquela choradeira toda resolve interferir:

– Jó, se eu fosse tu, levava um lero com Deus. Você sempre foi um cara firmeza, tem crédito com o Altíssimo! Fala com ele!

– Crédito, Elifaz? Tu me vem falar em crédito? Sim, fiz tudo certinho a vida toda e pra que? Me diga! Pra quê? Pra acabar pobre, doente, fedido, cheio de chagas, os filhos mortos e a mulher me achando um bunda mole? Sim, Elifaz, é isso que eu sou: um tremendo bunda mole! Tá cheio de safado na terra de Uz que nunca gastou uma só ovelha em sacrifício, nunca se desviou do mal um milímetro sequer e continua rico e formoso! Pra mim basta! Quero que Deus se foda!

– Jó, pensa bem. Mesmo não tendo feito nenhum mal, não tendo nunca blasfemado contra Deus, ele te lascou neste nível, imagina tu sendo malcriado deste jeito?

Jó pensou um bocado, respirou fundo e, depois de uns dias resolveu se humilhar pra Deus:

– Sei que tudo podes e conheces até meu pensamento. Por isso, me abomino e me arrependo, no pó e na cinza, de toda minha blasfêmia.

Deus olhou com superioridade para Satanás, que lixava as unhas em profundo tédio e, da mesma forma gratuita, aleatória e injusta que havia tomado, devolveu toda a fortuna e saúde a Jó.

Os filhos de Jó que matara no joguinho de poder com o Diabo, Deus nem se incomodou em ressuscitar.

Satanás se retirou, preocupado. Para o futuro, teria que rever suas estratégias. Aprendera neste episódio que perda de vidas humanas, sofrimento, dor e aflição não incomodam Deus, em nada. Se quisesse atingi-lo, teria que alcançar algo que, para o Divino tinha um valor maior, absoluto: a vaidade da obediência e adoração perpétua gerada, não por respeito, mas pelo frio e cruel domínio do medo.

Por que não agora?

A Dúvida de Tomé, 1599 Caravaggio, Stiftung Schlösser und Gärten Postdam-Sanssouci, Postdam, Alemanha.

Não aceitamos a nossa própria finitude. Encarar o fato de que nosso destino e o das folhas que varremos diariamente no quintal é exatamente o mesmo, nos assusta.

Temos ânsia em explicar o mundo e os maravilhosos mecanismos das leis que regem o Universo mas, para esta tarefa, só podemos contar com a inteligência da nossa espécie, a única consciente em um planetinha de quinta grandeza numa galáxia periférica que circula uma estrela que nem é das maiores já identificadas e que há trezentos e noventa anos (um sopro no tempo histórico) não sabia nem que o sangue circulava pelos corpos.

Tudo que ainda não conseguimos explicar preenchemos com a ideia de Deus, inferno e paraíso.

Mas enquanto a morte não chega, temos que lidar, não com a vida em sentido extenso, poético e profundo. Mas com o dia a dia, as pouquíssimas escolhas que nos cabem e todas as injustiças e absurdos do cotidiano decorrentes da maneira perversa com que muito poucos de nós decidem como a maioria deve e pode viver e morrer.

Neste contexto, a crença em uma vida após a morte é muito útil. Implica em acreditar que existe uma parte invisível e imortal em cada um de nós e que este ser etéreo sobrevive à destruição do corpo. Até aqui a maioria das religiões caminham juntas mas a partir deste ponto há uma bifurcação de duas grandes ideias: a reencarnação que prega o retorno da alma em um outro corpo e a ressurreição que pode acontecer na Terra ou em outros mundos.

Estas duas concepções já existiam muito antes de Jesus nascer, então nada disso é invenção do cristianismo ou inaugurado pelos textos bíblicos. A punição ou recompensa de cada indivíduo, como consequência de sua conduta em vida, já existia na Grécia antiga.

É uma forma muito eficiente de mitigar o impacto do sofrimento do inocente ou do êxito do homem mau. Acreditar que exista uma justiça superior que agirá em minha defesa depois da minha morte é uma aposta extremamente eficaz na perpetuação das injustiças terrenas. Essa organização da vida terrena com expectativas em uma outra vida após a morte é defendida sempre por quem explica o mundo através de verdades absolutas.

O grande problema das verdades absolutas é que elas não existem. Nenhum conceito é absoluto em se tratando de vida em sociedade. Toda convivência gera não só desejos opostos e direitos conflitantes mas o próprio ato de desejar é distinto em cada um de nós.

Cada desejo visa sua efetividade absoluta e a luta entre as forças de dominação e liberdade é perpétua. Não há modelo de solução total com pronta aplicabilidade. Tudo é processo, tudo é caminho. O modo de vida coletivo não frui com simplicidade.

Nenhum conceito universal pode ser aplicado a todos os indivíduos pois o homem é ele e sua circunstância.

Mas se é tão importante para nossa espécie que haja uma justiça que nos contemple após a morte, que seja eterna, premie os bons e castigue os maus, por que não batalhar para que ela aconteça também no mundo dos vivos, enquanto ainda estamos aqui?

Textos religiosos são produções humanas elevados à condição de sagrados de acordo com os interesses de cada denominação religiosa pertinente.

Pode ser que a justiça após a morte exista, pode ser que não. É sempre uma aposta. Mas para admitir o debate, vamos partir então da ideia de que todos os textos sagrados estão certos e que haverá um julgamento dos nossos atos determinado a decidir nosso destino após a morte.

Se a justiça divina premia conforme os atos de cada um, não haverá no céu uma hierarquia de bons? Não seria a perpetuação (aí, pra valer) da desigualdade entre os homens?

Prefiro lutar por justiça enquanto ainda posso fazer uso da minha subjetividade terrena. Essa eu conheço, acontece agora e tenho treinado diariamente a não fechar os olhos diante do que fere a mim e ao meu semelhante. Seria isso um demérito?

Procurar ser generoso, lutar contra preconceitos, buscar conhecer antes de julgar, buscar conhecer sem julgar, encarar cada ser humano  como portador dos mesmos direitos de todos, não aceitar a miséria como fato natural, entender que o mais fraco necessita de maior apoio e que o coletivo se impõe sobre o individual aqui na Terra, enquanto vivos, inviabiliza o paraíso?

Sei não. Talvez o apego a uma realidade que ainda não acontece e corre o risco de nunca acontecer seja uma forma cômoda de não assumir seu papel, não se importar, delegar responsabilidades prementes e esconder o próprio egoísmo em um invólucro de falsa respeitabilidade pretensamente superior.

Se as regras da justiça pós morte guardar alguma racionalidade, se esconder da vida num escudo religioso pode ser uma aposta muito, muito errada.

Pedro nega Jesus

Negazione di San Pietro – Caravaggio

Os romanos prenderam Jesus e o levaram para a casa do sumo sacerdote, autoridade local com poder de custódia. Pedro seguia de longe.

Havendo fogo aceso no meio do pátio e estando todos sentados, Pedro sentou-se entre eles.

Uma criada passando viu Pedro e disse:

– Você era um dos que sempre estavam com Jesus.

– Não sei de onde você tirou isso, mulher. Eu nunca o vi na vida!

Mas outro, sentado à sua frente, retrucou:

– É sim, te vi um dia num barco com ele, é você mesmo!

– Meu rosto é comum, todo mundo acha que pareço alguém!

Uma hora mais tarde, outro lhe aponta:

– Conheço tuas fuça! Tu também andava com o galileu!

Pedro saiu bufando:

– Já falei que não o conheço!

Nesse momento Pedro ouviu o galo cantar e pôs-se a chorar.

Todos fizeram silêncio em respeito ao cara que, afinal, perdera o amigo.

O que não podiam saber era o tamanho do desgosto que habitava aquele coração.

Pedro levantou-se e caminhou em direção à sua casa onde lhe esperava sua mulher, que há muito não via e sua sogra, aquela que há anos tivera a bem-aventurança de ver esticadinha no caixão, pronta pra descer à cova e Jesus teve a PACHORRA de ressuscitar numa tarde de quarta-feira. Nem chovia.

Por certo fruto da bebedeira nas bodas de Caná ou querendo fazer uma graça, não importa. Ressuscitou a velha, numa época em que as mulheres viviam mais de cem anos.

O pior era que, agora, com a morte do amigo, acabara a desculpa pra não voltar pra casa.

Sua figura, vista de costas, caminhando cabisbaixo, ombros caídos, era a imagem da derrota. Acabara os desvarios da mocidade. Agora era fazer a barba, vender a harpa e arrumar um emprego. A velha não ia deixar barato.

Ah, Jesus, te negar foi pouco. Eu devia era ter chegado primeiro nas trinta moedas!

Lucas 22:54-62

Os sete selos

O Cordeiro abrindo os sete selos. Quadro de Matthias Gerung para a Ottheinrich-Bibel (1530-1532).

Apocalipse significa revelação. Neste livro, João registra tudo que disse ter visto e ouvido na ilha de Patmos sobre o destino da humanidade.

Esta é uma preocupação eterna. De onde viemos? Para onde vamos? Qual o propósito?

Ciência e religião se debruçam sobre o tema tentando interpretar e conhecer a realidade. A primeira por meio de evidências, experimentação e lógica. A segunda por imagens que determinem comportamentos guiados, sobretudo, pelo medo. Ambas partindo da mesma base de fatos.

No livro de Apocalipse, do capítulo 1 ao 4, João escreve sete cartas às igrejas da Ásia para que o ouçam, estabelece um conselho de quatro animais, vinte e quatro anciãos, todos diante do trono onde está sentado Deus, garantindo assim plenário, publicidade e júri.

No capítulo 5, então, João escreve sobre os sete selos. Antes, reconhece que o único com propriedade e habilitação para abrir cada um dos selos e revelar cada uma das visões é Jesus, o cordeiro de Deus. Definindo assim rito, investidura e norma, ao que cada um dos animais do conselho diz: Amém e em frente ao qual todos os vinte e quatro anciãos se prostram.

O primeiro selo aberto revela o primeiro cavaleiro. Num cavalo branco, materializado pelas falsas profecias de que João fala na primeira das sete cartas, endereçada à igreja de Éfeso, o cavaleiro empunha um arco, mas sua verdadeira arma é o engano.

Quando o segundo selo é aberto, o cavaleiro da guerra toma conta do mundo. Seu cavalo é vermelho como o sangue que jorra das atrocidades cometidas pelas pessoas entre si e da perseguição do Estado. Na segunda carta à igreja de Esmirna, João fala da tentação sofrida por aqueles que são jogados na prisão.

O terceiro selo liberta a fome num cavalo preto. O cavaleiro segura uma balança que representa o equilíbrio entre os recursos que o mundo possui. Para onde são destinados esses recursos e os danos globais irreversíveis causados pela injusta distribuição: Uma medida de trigo por um dinheiro e três medidas de cevada por um dinheiro.

O quarto selo é a personificação da morte. Montada em um cavalo amarelo pálido, fantasmagórico, ela será responsável por levar as almas sacrificadas pela ação de todos os demais cavaleiros. Em especial a quem deu ouvidos à Jezebel mulher que se diz profetiza e ensina e engana meus servos, exortação de João na quarta carta, à igreja de Tiatira. Mas às almas que se ativerem à verdade lhes darei a estrela da manhã.

O quinto selo é aberto e João pode ver as almas dos que não se submeteram às falsas profecias e foram mortas por seu amor à palavra e obediência à verdade.

A abertura do sexto selo é a aniquilação final. O mundo em total desordem, e o céu retirou-se como um livro que se enrola e ilhas foram removidas do seu lugar. Perturbações cósmicas destruindo a atmosfera impossibilitando a vida humana na terra.

O sétimo selo abre em silêncio. É quando a fúria de Deus desce para reiniciar o mundo. É como se, no último livro do Novo Testamento, o Deus de Moisés se cansasse, enfim, dos desatinos humanos e voltasse à velha forma dos livros do Pentateuco. Resta saber se no novo mundo haverá lugar e voz para as almas que guardam a verdade, respeitam a lei, defendem o equilíbrio e clamam, mais do que por salvação, por justiça.

Sodoma e Gomorra

Revoltado com as bizarrices sexuais que rolavam em Sodoma e Gomorra, Deus, que não tinha mais nada para fazer, mandou dois anjos para resolver a parada.

Era uma terça feira e não chovia. Estava Ló sentado à porta de Sodoma, limpando a unha do pé com o canivete. Ao avistar os dois anjos chegando, encheu-se de alegria: “Hoje eu tenho parceria pro caxangá!” Sem demora, convidou os dois para jantar e passar a noite em sua casa.

Antes que se deitassem, porém, todos os varões de Sodoma cercaram a casa de Ló gritando para que saíssem os dois hóspedes para ter com eles. O que na época não significava coisa boa.

Ló, que conhecia bem a rapaziada, saiu sozinho, fechou a porta atrás de si e disse:

– Meus irmãos, não façam mal aos moços. Eu tenho duas filhas que ainda não conheceram varão, façam com elas o que bem entenderem, mas não façam mal aos moços.

Ló era um cara hospitaleiro. Ungido de Deus.

A galera não gostou:

– Ló, tu chegou aqui esses dias, já está querendo ser juiz da parada? Sai da frente que vamos entrar!

Nesse momento, um dos anjos abre a porta, puxa Ló pra dentro e num passe de mágica cega todos os varões do lado de fora e eles não conseguem mais achar a porta – juro por Deus!

Os anjos, prontos pra matar geral, perguntam a Ló:

– Tem mais alguém da tua família que queira poupar? – Nepotismo ainda não era crime na ocasião.

Sodoma e Gomorra tavam mais sujas que pau de galinheiro no conceito do Divino. Gomorra mais do que Sodoma, pois sodomia todo mundo sabe o que é, mas gomorria a gente não tem nem ideia. Inclusive, segundo Veríssimo, era pra Gomorra que a rapaziada de Sodoma ia todo sábado à noite, modos que os anjos vieram com a missão de não deixar nada em pé, mesmo!

Ló e sua família receberam a ordem de partir, sem olhar pra trás. Então Deus fez chover fogo e enxofre sobre Sodoma e Gomorra, ferindo de morte os direitos autorais de metodologia e uso de materiais de Dom Capeta, que guardou esse rancor bem guardadinho pruma vingança posterior, que acabou por custar bem caro a Jó, décadas mais tarde, mas essa é outra história, voltemos.

A mulher de Ló não segurou a curiosidade, olhou pra trás e virou uma estátua de sal.

Sobrou Ló e suas filhas que foram morar em uma caverna. Numa noite de sábado, quem sabe com saudade de Gomorra, a mais velha tem a ideia de embebedar Ló e engravidar do pai. No dia seguinte é a vez da mais nova.

Tão lindos são os desígnios de Deus, não é mesmo? Tendo poder sobre todas as coisas e comandando os destinos decide o futuro da humanidade por meio do estupro e do incesto, num combo fantástico que só poderia constar em um livro sagrado de inspiração celestial.

Gênesis, capítulo 19, versículos 24-38

O Verbo e o João

Christmas Day – Chagall

Dos quatro evangelhos resultantes da seleção do Concílio de Trento (1545-1563), Mateus, Marcos, Lucas e João, os três primeiros são sinóticos, podem ser abordados a partir de um único olhar, pois se repetem e complementam. Inclusive com falhas e contradições notáveis.


Mateus, por exemplo, coloca Jesus numa linhagem que tem início em Abraão e omite gerações para atingir a numerologia judaica do rei Davi.


Em outra passagem, assenta o nascimento de Jesus sob o reinado de Herodes, enquanto Lucas o situa no momento de recenciamento ordenado pelo imperador Augusto.


Aliás, este é um dos pontos em que o cristianismo sempre se lasca, pois se tem coisa que romano fazia bem, era registrar.


Se Herodes morreu em 4 a.C. e o censo do imperador Augusto data de 6 d.C., dez anos separam as duas únicas referências cronológicas dos evangelhos. Alguém do Concílio de Trento deixou passar essa.


Santo Agostinho, que já foi autoridade dentro do cristianismo, afirmava que Marcos era uma cópia malfeita do evangelho de Mateus.


A discrepância nos evangelhos está em João. Não de conteúdo, mas de forma.
Quando chegamos em João, o último dos quatro evangelhos, o relato da vida terrena de Jesus se interrompe e somos remetidos a antes da criação, a tempos imemoriais, quando o espírito pairava sobre as águas.


Enquanto Mateus, Marcos e Lucas fizeram os blogs do Nazareno, com direito a self na manjedoura, recebidinhos dos Reis Magos e parto humanizado, João optou pela poesia.
Aqui ninguém me pega, deve ter pensado. E tava certo.
Ao optar pela poesia, João suprimiu Maria, José, os reis magos e os burrinhos todos. Ele vai do Verbo a João Batista sem fazer nenhuma menção terrena ao nascimento do filho de Deus, evitando para sempre que, no futuro, ateus empedernidos apresentassem dados históricos incontestes ao seu testemunho.
Os trechos:


No princípio era o Verbo, o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. Todas as coisas foram feitas por ele e sem ele nada do que foi feito se fez.

(…)
E o Verbo se fez carne e habitou entre nós.


Podem ser uma afirmação e testemunho do nascimento do filho de Deus, tornado carne em forma humana para redenção dos pecados do mundo.
Ou, a aclamação da palavra como verbo divino, condução de pensamento e forma sagrada de registro da arte e saberes para aprimoramento da espécie.


Eu me agarro em João, na sua poesia e na intenção sublime de suas palavras ao dizer:
Nele (no Verbo), estava a vida e a vida era a luz dos homens.
Sim, no verbo está o que ilumina, esclarece, torna evidente pela palavra, informa a existência e contrapõe os argumentos para análise.
Que este seja o momento de aceitar o Verbo, fazê-lo carne e deixar que habite para sempre entre nós.
Feliz Natal!

Significantes e Significados

São Jerônimo que Escreve – Caravaggio

Traduzir é localizar.

Pela linguagem é possível situar um texto no tempo e no espaço.

Pela linguagem também exercemos poder.

Portanto não há tradução inocente. A forma como um texto é levado de um idioma para outro traz as marcas indeléveis dos fatores históricos, sociológicos e culturais a que foi submetido o tradutor em sua época.

A eleição de cada termo em detrimento dos demais e a construção escolhida o revela e o inclui, a cada linha.

Dos textos bíblicos não existe um único manuscrito original. Tudo o que temos são cópias feitas por escribas no decorrer dos séculos e as traduções decorrentes, sendo essas muitas vezes encomendadas por soberanos ávidos pela ferramenta literária tão poderosa.

Fé cristã pode não ser escolha. Mas os textos em que se funda a doutrina, certamente são.

Abaixo, um mesmo trecho bíblico em traduções diversas.

Escolhido por mim.

Cânticos dos Cânticos

Capítulo 7

1 – Vire-se, vire-se, Sulamita.

Vire-se, vire-se. Queremos contemplar você.

O que vocês olham na Sulamita

Quando ela baila entre dois coros?

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

Tradução: Ivo Storniolo e Euclides Martins Balancin

(Paulus, 1990)

Cânticos dos Cânticos

Capítulo 7

1 – Volta, volteia Sulamita

Volta, volteia e nós estaremos te contemplando

Na Sulamita, o que tanto contemplas?

É vê-la enquanto dança a dança-dos-campos-rivais

Éden – um tríptico bíblico.

Tradução: Haroldo de Campos

(Perspectiva, 2004)

Cânticos dos Cânticos

Capítulo 7

1 – Vira-te, vira-te, Sulamita!

Vira-te, vira-te para que possamos te ver!

O que queremos ver na Sulamita

Como se esta fosse a dança do Maanaim?

 O Cântico dos Cânticos – Um ensaio de interpretação através de suas traduções

Tradução: Geraldo Holanda Cavalcanti

(Edusp, 2005)

Moisés, O Cara

Moisés salvado de las aguas – de Orazio Gentileschi – Museo Nacional del Prado

Para mim, a Bíblia tem duas grandes personagens: no Novo Testamento, Maria, da qual já falei, busquem nos arquivos, e no Velho Testamento, Moisés.

Moisés nasceu na época em que os judeus eram escravos no Egito. O faraó se preocupava com a densidade demográfica da população escrava e a coisa piorou muito quando seus astrólogos vieram com a seguinte conversa:

“Vemos nas estrelas, majestade, que está para nascer um menino que libertará todos os escravos judeus e os tirará do Egito.” 

Fodeu.

O faraó não era homem de deixar pra depois nada que pudesse colocar em risco sua forma de governar pela dominação e força e ordenou às parteiras que matassem sufocados, assim que nascessem, todos os bebês judeus do sexo masculino.

Mas mulher a gente sabe como é, finge que obedece, mas faz do jeito que acha por bem na hora e, assim sendo, Moisés foi poupado da morte por asfixia no nascimento.

Mas o problema persistia. As ordens do faraó eram de matar no nascimento ou afogar no rio Nilo.  A mãe e a irmã foram criativas. Botaram o menino num cesto de palha e puseram no rio, perto de onde a filha do faraó se banhava com as criadas. O bebê foi encontrado e não deu outra:

“Pai, olha o que eu achei no rio! Deixa eu ficar, deixa! Juro que limpo a sujeira, dou comida, levo pra passear! Deeeixxaaaa?”

O faraó deixou.

Moisés cresceu na família real, tendo acesso a todo conhecimento científico na época, mordomias e quetais, mas o que é a testosterona, né, minha gente? Numa tarde ociosa, Moisés viu um guarda batendo num escravo hebreu, ficou puto e matou o soldado. O faraó mandou matar Moisés e ele teve que fugir do Egito.

Nessa fuga, conheceu Midiã, casou, teve filho, virou pastor de ovelhas, mas o tédio, né?

“Vou voltar pro Egito e libertar aquela gente! Vou mostrar pro faraó com quantas pragas se elabora uma fuga em massa!”

E foi aquele rebuceteio.

Sete pragas, mar Vermelho, essa parte todo mundo está careca de saber. A parte que eu adoro é a das tábuas.

Aquele povo todo andando no deserto, sem leis, sem regras e sem chegar nunca no destino estava pior que grupo no Facebook. Moisés não aguentava mais separar briga e decidir contendas.

Promover a ordem pela oralidade complicava, pois Moisés era gago. Não sabiam? Sim, gaguinho da Silva.

Pode conferir: Ex 4, 10

Ficava mais fácil se as regras fossem escritas. Na falta de papel, pedra. Muito melhor o efeito, inclusive.

E antes de subir o monte Sinai, Moisés passou o recado de Deus:

“Que ninguém suba nem toque no monte. Quem tocar, certamente morrerá.”

E o monte Sinai fumegava, tremia e emitia uma nuvem espessa.

Ex 19, 9-25

Moisés tinha conhecimentos de astronomia, geologia ou qualquer coisa que permita identificar uma erupção vulcânica e resolveu usar a seu favor.

Deu certo.

Seus dez mandamentos permitiram um pouco de ordem na putaria reinante e deu pra conduzir o povo na jornada.

Entrar na Terra Prometida Moisés não entrou. Perdeu o direito ao duvidar de Deus quando ele mandou bater na pedra com o cajado pra conseguir água. “Sete pragas, ok, mar Vermelho, idem, mas água na pedra tá puxado, Senhor!”

Como Deus não é um cara que esquece, Moisés conduziu o povo até a entrada da Terra Prometida, passou a missão para Josué e ali faleceu.

Dt 34, 1-8

Moisés era da Tribo de Levi, descendente de Abraão, por isso o gosto pela epopeia estava no sangue.

Esta história está na base do cristianismo, judaísmo e islamismo.

Mas não podemos esquecer que começou com alguém que foi exposto ao conhecimento científico vigente. Isso lhe permitiu enxergar o mundo a partir de parâmetros mais complexos e só assim essa história foi possível.

Essa história pode ser base de sua fé. Mas é conhecimento. E é humano.