Moisés, O Cara

Moisés salvado de las aguas – de Orazio Gentileschi – Museo Nacional del Prado

Para mim, a Bíblia tem duas grandes personagens: no Novo Testamento, Maria, da qual já falei, busquem nos arquivos, e no Velho Testamento, Moisés.

Moisés nasceu na época em que os judeus eram escravos no Egito. O faraó se preocupava com a densidade demográfica da população escrava e a coisa piorou muito quando seus astrólogos vieram com a seguinte conversa:

“Vemos nas estrelas, majestade, que está para nascer um menino que libertará todos os escravos judeus e os tirará do Egito.” 

Fodeu.

O faraó não era homem de deixar pra depois nada que pudesse colocar em risco sua forma de governar pela dominação e força e ordenou às parteiras que matassem sufocados, assim que nascessem, todos os bebês judeus do sexo masculino.

Mas mulher a gente sabe como é, finge que obedece, mas faz do jeito que acha por bem na hora e, assim sendo, Moisés foi poupado da morte por asfixia no nascimento.

Mas o problema persistia. As ordens do faraó eram de matar no nascimento ou afogar no rio Nilo.  A mãe e a irmã foram criativas. Botaram o menino num cesto de palha e puseram no rio, perto de onde a filha do faraó se banhava com as criadas. O bebê foi encontrado e não deu outra:

“Pai, olha o que eu achei no rio! Deixa eu ficar, deixa! Juro que limpo a sujeira, dou comida, levo pra passear! Deeeixxaaaa?”

O faraó deixou.

Moisés cresceu na família real, tendo acesso a todo conhecimento científico na época, mordomias e quetais, mas o que é a testosterona, né, minha gente? Numa tarde ociosa, Moisés viu um guarda batendo num escravo hebreu, ficou puto e matou o soldado. O faraó mandou matar Moisés e ele teve que fugir do Egito.

Nessa fuga, conheceu Midiã, casou, teve filho, virou pastor de ovelhas, mas o tédio, né?

“Vou voltar pro Egito e libertar aquela gente! Vou mostrar pro faraó com quantas pragas se elabora uma fuga em massa!”

E foi aquele rebuceteio.

Sete pragas, mar Vermelho, essa parte todo mundo está careca de saber. A parte que eu adoro é a das tábuas.

Aquele povo todo andando no deserto, sem leis, sem regras e sem chegar nunca no destino estava pior que grupo no Facebook. Moisés não aguentava mais separar briga e decidir contendas.

Promover a ordem pela oralidade complicava, pois Moisés era gago. Não sabiam? Sim, gaguinho da Silva.

Pode conferir: Ex 4, 10

Ficava mais fácil se as regras fossem escritas. Na falta de papel, pedra. Muito melhor o efeito, inclusive.

E antes de subir o monte Sinai, Moisés passou o recado de Deus:

“Que ninguém suba nem toque no monte. Quem tocar, certamente morrerá.”

E o monte Sinai fumegava, tremia e emitia uma nuvem espessa.

Ex 19, 9-25

Moisés tinha conhecimentos de astronomia, geologia ou qualquer coisa que permita identificar uma erupção vulcânica e resolveu usar a seu favor.

Deu certo.

Seus dez mandamentos permitiram um pouco de ordem na putaria reinante e deu pra conduzir o povo na jornada.

Entrar na Terra Prometida Moisés não entrou. Perdeu o direito ao duvidar de Deus quando ele mandou bater na pedra com o cajado pra conseguir água. “Sete pragas, ok, mar Vermelho, idem, mas água na pedra tá puxado, Senhor!”

Como Deus não é um cara que esquece, Moisés conduziu o povo até a entrada da Terra Prometida, passou a missão para Josué e ali faleceu.

Dt 34, 1-8

Moisés era da Tribo de Levi, descendente de Abraão, por isso o gosto pela epopeia estava no sangue.

Esta história está na base do cristianismo, judaísmo e islamismo.

Mas não podemos esquecer que começou com alguém que foi exposto ao conhecimento científico vigente. Isso lhe permitiu enxergar o mundo a partir de parâmetros mais complexos e só assim essa história foi possível.

Essa história pode ser base de sua fé. Mas é conhecimento. E é humano.

A caminho de Damasco


Conversione di San Paolo é uma das mais conhecidas obras do pintor italiano Caravaggio pintada entre 1600 e 1601 para a igreja Santa Maria del Popolo

O sagrado tem conotação prática, não mística.

Sagrado é tudo que colocamos sob uma aura, segundo critérios absolutamente pessoais. Enquanto o seu sagrado o conduz à oração, o meu pode me levar à pintura, ou vice-versa. O sagrado faz parte da nossa construção individual.

Portanto, a leitura da Bíblia não é uma prática restrita às pessoas de fé. O legado das escrituras que foram alçadas à categoria de literatura cristã obedeceu a algum critério objetivo, que não sabemos exatamente qual.

Por ocasião das primeiras décadas da era cristã, Roma já padecia sob os efeitos das suas conquistas. Era um imenso território geográfico formado por anexos conquistados pela força da espada, abrigando as mais diversas formas de cultura e formação.

Desta forma, Roma não podia mais ajudar a todos. As pessoas estavam precisando se ajudar mutuamente.

Lembrem-se: Jesus havia morrido, condenado pelo Estado de Roma e o Novo Testamento estava em construção a partir da oralidade.

Mas uma nova cultura não nasce do zero. Nem uma nova religião. Ela sempre é construída a partir dos alicerces de uma religião anterior.

Aqui entra a figura de Paulo.

A linguagem de Jesus era campestre, própria do ambiente agrícola e pastoril da Palestina. Paulo era homem da cidade, usava uma linguagem mais teológica e abstrata.

Paulo nasceu cidadão romano, conforme retrata o texto bíblico. Para isso, segundo as leis romanas, seu pai já devia ser cidadão romano. Seus ancestrais devem ter servido como legionários do exército romano em suas inúmeras batalhas e adquirido assim a cidadania.

O jovem Saulo foi criado distante dos prazeres que reinavam na sua querida e próspera Tarso e, apoiado por seus pais, judeus zelosos, dedicava-se ao aprendizado do grego e do hebraico.

O fato que mais se destaca em sua vida de aprendizado foi o fato de ele se haver sentado aos pés de Gamaliel, o maior mestre do seu tempo entre os judeus (Atos 22.3).

 Isso o tornou um intelectual muito acima da média, como dele diz BRUCE, F. F.  em sua obra Paulo: o apóstolo da graça, sua vida, cartas e teologia:

De todos os escritores do Novo Testamento, Paulo é o que gravou sua própria personalidade de modo inconfundível em seus escritos. […] não por ter composto suas cartas com um olho na propriedade estilística e no veredito de aprovação de um público mais amplo do que o que tinha primeiramente em vista, mas porque elas expressam, de modo tão espontâneo e por isso eloquente, seu pensamento e sua mensagem.

A qualidade da escrita de Paulo era reconhecida pelos maiores helenistas de sua época. É autor de treze cartas que compõem o Novo Testamento sendo que metade delas tem autoria comprovada e metade se atribui a seguidores.

Paulo dedicou sua vida à propagação do cristianismo com furor de cristão novo.

Teve preço.

Foi preso e acusado de chefiar os cristãos e divulgar a seita.  A pena de morte para cristãos comuns era a arena de leões, mas Paulo não era um cidadão comum.

 Além de nobre e jurista, era um verdadeiro cidadão romano. Preso, sua sentença foi a mesma dos cristãos, mas a forma de execução, não. Recebeu a forma de execução reservada a militares e cidadãos romanos – a morte por decapitação. Era uma forma de reconhecimento da sua cidadania.

No ano 67 d.C., na Segunda Sessão do Tribunal, Paulo foi condenado à morte. Estava velho, cansado e não tinha a quem recorrer. Escreve então sua última carta, a Timóteo, afirmando de forma terrível e maravilhosa:

Combati o bom combate, concluí a minha carreira, guardei a fé. De resto, me está reservada a coroa da justiça, que o SENHOR, justo juiz, me dará naquele dia.

Foi decapitado por Roma, do lado de fora da cidade. Local hoje assinalado pela igreja San Paolo Fiori Le Mura.

O cristianismo nasceu na oralidade. Sua propagação deve seu sucesso à capacidade de estruturação, análise e propriedade do discurso de Paulo.

Cada uma de suas cartas obedece às regras de saudação, corpo e conclusão e são dotadas de reflexões e conteúdo primoroso.

O cristianismo nasceu na oralidade. Mas foi a boa literatura que garantiu-lhe a vida eterna.

Inferno Cristão

As primeiras décadas do cristianismo foram dedicadas à produção da sua literatura.

Visões, revelações, códigos de conduta, o que foi reunido na Bíblia que conhecemos é uma pequena seleção entre o que foi produzido a partir de Cristo e até mesmo antes dele.

Deus e o Diabo, por exemplo, não nasceram exatamente como hoje pregam as igrejas.

No Antigo Testamento, a bíblia judaica, o termo “Sheol” designa o sombrio e subterrâneo local dos mortos, para onde iam os maus, mas também os bons, pois o Deus do Velho Testamento não deixava para depois, punia os homens ainda em vida.

Foi o Novo Testamento que inaugurou o inferno como o conhecemos. Local dos excluídos, punição dos maus, destino de infiéis.

Clemente de Alexandria, um teólogo grego que viveu aproximadamente entre os anos 150 e 220, pagão de nascimento, aproximou-se do cristianismo por meio da filosofia. Clemente menciona os textos de Platão sobre os castigos do além e a esperança de outra vida em sua obra “Os Estrômatas”. Ele rejeitava a ideia da punição pelo fogo e a noção do Diabo como chefe dos demônios. Para ele se tratava apenas de uma “alma maligna”.

O Deus de Clemente de Alexandria era infinitamente bom e justo, praticando punições meramente educativas num quadro onde todos os justos da humanidade poderiam contar com a felicidade eterna, prescindindo de conversão e aceitação de Jesus.

Outro teólogo alexandrino, Orígenes (185-253) tomou, em seguida de Clemente, o lugar de grande erudito da teoria alexandrina. Ele também acreditava na grande bondade e misericórdia de Deus. Desenvolveu a tese de Clemente da restauração final (chamada por ele de “apocatástase”) segundo a qual toda a humanidade seria salva.

Também rejeitou o suplício do fogo aplicado aos maus pelo demônio. Para ele não era um fogo material, mas espiritual, usado para purificação das almas. As almas seriam torturadas pela tomada de consciência dos seus pecados e purificadas pelo arrependimento.

Mas a hierarquia católica, já vigente, não concordou com isso, não. Achou várzea demais.

Nos séculos seguintes, a doutrina alexandrina foi atacada com vigor pela Igreja, que buscava sua hegemonia na Europa. Em 553, no Concílio de Constantinopla, a doutrina de Alexandria foi amaldiçoada. Grande parte da obra dos teólogos foi destruída.

A partir daí, a visão do inferno que foi considerada pela Igreja Católica e permaneceu inalterada na Reforma de Lutero, passou a ser a de Agostinho, Bispo de Hipona e gênio do cristianismo latino.

O Inferno de Agostinho não dá colher de chá.

Não há salvação para todos e a humanidade herda, geração após geração, o pecado de Adão e Eva. Somos culpados e condenáveis.

Passamos a vida trabalhando a salvação, que não é para todos. E falar da salvação de um pequeno número é falar da danação da maioria.

Agostinho coloca o Juízo Final como uma série contínua de juízos que começa com a expulsão do Paraíso, passa pela separação dos bons e dos maus e termina no Apocalipse.

E depois do Juízo Final, no seu livro “A Cidade de Deus”, Agostinho carrega nas tintas:

“De todos os males, o pior: essa morte que não procede mais da separação da alma e do corpo, mas da eterna união de ambos, em sofrimentos eternos. É então que os homens não estarão mais antes da morte e depois da morte, vale dizer, jamais vivos, jamais mortos, mas morrendo sem fim.”

Agostinho falou tudo sobre o inferno, só não deu o endereço. Disso cuidou o papa Gregório, o Grande (540-604). Segundo ele, o inferno é “subterra”, como estava o “Sheol” hebreu. Um abismo profundo, tão distante quanto possível dos céus. Seus habitantes não são sombras, mas sim condenados pela justiça divina a sofrer torturas eternas.

A partir de Agostinho e Gregório, o Grande, o cristianismo colocou no centro de sua teologia o pecado e suas consequências.

Isso moldou toda a forma de pensar do ocidente. Fomos formatados a conceber o mundo de forma maniqueísta. Separamos bons e maus por muros e por cores, conferimos às pessoas características divinas de deuses e demônios. E ao aceitar o pecado original como herança, garantimos a existência do inferno como destino e justificamos a submissão total ao Criador.

Não há espaço para raciocínio e lógica. É a simplificação do pensamento na sua forma mais rasa.

É realmente uma pena que a estruturação da literatura cristã não tenha seguido o caminho da justaposição de ideias e do argumento entre contrários, pois, ao se sobrepor como pensamento dominante por força, nos legou um inferno adicional: a subserviência a um pensamento único determinado por temor e perpetuado pela ignorância.

Também dói e sim, parece eterno.

Bodas de Caná


O meu milagre preferido é o primeiro milagre de Jesus: a transformação da água em vinho nas Bodas de Caná.

Narrado exclusivamente no Evangelho de João, dá a ideia de que Jesus era um cara que não queria que a festa acabasse. João narra uma resposta algo malcriada que Jesus dá à sua mãe quando ela avisa que o vinho havia acabado, mas tendo sido criado como Filho de Deus e Salvador do Mundo não seria de todo estranho uma certa soberba no indivíduo, não é mesmo?

Também não podemos nos esquecer que as primeiras talhas de vinho já tinham sido esvaziadas e os ânimos podiam estar alterados.

A própria narrativa do evento diz que “Jesus foi convidado com todos os seus discípulos para o casamento.” Se todos estavam presentes, porque Mateus não registra o feito no seu Evangelho? Por que essa história não aparece em outro livro? Seria de pouca importância o primeiro milagre do Messias?

Se houve a festa em Caná, da Galileia, é possível que Jesus, sua família e discípulos tenham sido convidados e que estivessem presentes. Mas se água foi transformada em vinho no fim da festa, quando já não havia nenhuma gota de álcool que não tivesse sido emborcada, acho que precisaríamos de um relato mais sóbrio do que o de um indivíduo que costuma narrar o que vê na seguinte construção literária:

“Sobe do mar uma besta de sete cabeças e dez chifres. A besta era semelhante ao leopardo, com pés de urso e a cabeça de um leão”.

João conta detalhes sobre a besta e ainda fala sobre um dragão que interage com a besta. Em seguida, relata que viu subir da terra outra besta de dois chifres semelhantes aos de um cordeiro. Essa coisa abre três selos e a cada selo aberto libera uma peste e, ainda, cai um terço das estrelas do céu.

Esse é um trecho do Apocalipse, que uma corrente de pesquisa afirma ser de autoria do mesmo João do Evangelho.

Um estupendo ficcionista.

Se a semana é santa a sexta feira é deusa!

A Páscoa, antes da libertação do povo hebreu do Egito, era uma festa da primavera. Uma celebração de camponeses e pastores por meio de dois elementos: o cordeiro e os pães.

A celebração do cordeiro acontecia à noite, ao redor do fogo, com a participação de todo clã e o tamanho do cordeiro correspondia ao tamanho do clã. Era a confraternização dos pastores que se preparavam para a busca de novos pastos.

Já a festa dos pães acontecia por uma semana e era marcada por assembleias do clã no início e fim da semana. Era um festejo de camponeses pelos primeiros frutos da roça e sua preparação para uma nova semeadura.

Era uma iniciativa dos clãs e das tribos, não era festa oficial dos palácios. Mas aos poucos recebeu um sentido mais amplo, de celebração e libertação dos hebreus do jugo do Faraó. O que era celebração passou a ser, também, memória e identidade.

Êxodo 12:14

“E este dia vos será por memória e celebrá-lo-eis por festa ao Senhor, nas vossas gerações e celebrareis por estatuto perpétuo.”

A Páscoa, portanto, era celebrada séculos antes de Cristo e o culto à sua morte e ressurreição é apenas mais uma das muitas apropriações do Cristianismo.

A Páscoa cristã é comemorada anualmente, no primeiro domingo após a lua cheia que ocorre no início da primavera no hemisfério norte e no início do outono no hemisfério sul. A partir dessa data, retrocedendo quarenta dias, é o período conhecido como Quaresma, que tem início na quarta-feira de cinzas, que encerra o carnaval.

Esse calendário complicado é apenas a maneira fofa de Jesus aconselhar um período de quarenta dias de recolhimento e frugalidade após os excessos momescos. Quase a dieta do Nazareno.

A semana santa começa no Domingo de Ramos que lembra a entrada de Jesus em Jerusalém, em triunfo, montado num burro e as pessoas cobrindo a rua com folhas de palmeira comemorando a sua chegada e acaba na sexta-feira com Jesus crucificado. O que prova que liberar o vinho na taberna talvez não tenha sido uma boa ideia.

O pessoal deve ter exagerado depois do período de abstinência para ir de triunfo no domingo a Judas vender Jesus e Pedro negar conhecê-lo até sexta-feira.

De Judas não digo coisa alguma, mas sobre a atitude de Pedro, corre à boca pequena que foi revanche.

Tempos atrás, tendo morrido a sogra de Pedro, num tempo que mulher vivia pra caramba, pessoal já tinha recolhido a verba da comemoração na taberna, Belzequias já tinha mandado matar o carneiro, vai Jesus e comete o desatino de ressuscitar a mulher.

Pedro amargou calado por anos essa desfeita. Mas no último minuto, deu pra trás. Não dava pra perdoar tamanha trairagem.

Fonte:

Jesus cura a sogra de Pedro

Marcos 11: 29-31

Lucas 4; 38-41

Mateus 8: 14-15

Pedro nega Jesus

Marcos 14: 66-72

Lucas 22: 54-62

Pedra fundamental

João 1:1 diz: “No princípio, era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.” (Versão do tradutor João Ferreira de Almeida)
João 1:1 diz: “No princípio, era o Verbo, e o Verbo estava em Deus, e o Verbo era Deus.” (Versão do tradutor Pe. Matos Soares)

É provável que, antes de serem escritos, os textos bíblicos tenham sido transmitidos oralmente por gerações.

A partir da transcrição em pergaminhos, as escrituras bíblicas migraram de idioma conforme foram migrando os povos sobre os quais se falava.

A Bíblia foi escrita em vários lugares. O Velho Testamento na Babilônia, para onde os hebreus foram levados em cativeiro no século VI a.C. e no Egito. Já o Novo Testamento foi escrito na antiga Palestina. Então parte do Império Romano, na Síria, Ásia Menor e Grécia.

O Velho Testamento foi inicialmente escrito em hebraico, que era o idioma mais usado antes do cativeiro e também o idioma litúrgico.

Depois do cativeiro, o povo judeu passou a falar o aramaico e quando Alexandre, o Grande, conquistou o Oriente Médio, judeus emigraram para vários lugares do seu império onde se falava o grego.

Histórias contadas ao redor do fogo tomaram forma escrita e chegaram até nós por meio de línguas que se firmaram por conquista, reação ou construção de identidade.

Não sem antes passar pelo crivo da tradução, que identifica o texto com a impressão de hoje, sem a emoção que originou a fala e sem a precisão impossível da intenção do texto.

Falaremos destes escritos, notadamente as histórias. Sem fugir ao verbo, sem negar as falas e assumindo por completo não o que foi escrito, pois isso jamais saberemos, mas o que nos foi legado pelas traduções.

E sobre elas teceremos nossas impressões e investigações pertinentes, contribuindo assim de forma definitiva para o trabalho dos futuros tradutores que, se não foram capazes até hoje de conferir brilho às escrituras deve-se unicamente ao fato de ninguém, ABSOLUTAMENTE NINGUÉM, ter-se debruçado com seriedade sobre os textos e se preocupado em extrair deles uma compreensão cabal da mensagem.

Podem trancar a matrícula na catequese e abrir o vinho!
No Princípio Era o Verbo, chegou!

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Zacarias e as primas

Zacarias e Isabel  eram casados, não tinham filhos e já eram de idade avançada. Não ter filhos naquela época era roubada.

Zacarias era sacerdote e um dia, como de costume, entrou sozinho no templo para oferecer o incenso, a multidão lá fora. No templo aparece um anjo e diz a Zacarias:

– Isabel tá prenha.

– Como???

– Acredite, sou o Gabriel. Fica na tua, nem um pio.

Zacarias emudeceu por meses.

Gabriel, que não conseguia manter a espada embainhada, seis meses depois vai a Nazaré e visita (juro por Deus) uma virgem.

Essa virgem se chamava Maria, era prima de Isabel (ceis queria o quê? O mundo HOJE é um ovo, magina naquele tempo?) e tcham-tcham-tcham-tcham! noiva de José, e dessa visita resulta a segunda prenhez dessa história.

Fato é que mulher, a gente sabe, quando precisa discutir um problema faz o quê? Acertou, publica no grupo do Face. O equivalente, naquela época, era ir pra casa da prima.

Foi só chegar e Isabel:

– Gabriel teve lá, né prima?

Zacarias nessa hora destrambelha a falar:

– O nosso terá o nome do pai: Zacarias.

Isabel:– Well, não vamos mexer nesse assunto. Melhor João.

E assim foi.

Analisemos:

Essa história determinou o rumo de toda cultura ocidental e foi criada a partir de um problema, ou melhor, de dois problemas que poderiam ter sido resolvidos pela violência imediata do patriarcado. O que fez as mulheres concordarem com a história e a sustentarem cada um dos dias de suas vidas é fácil imaginar. A pena para adultério era apedrejamento e não prescrevia. A profecia do Salvador que livraria os hebreus do jugo da escravidão já existia e não era nova, vinha desde o profeta Isaías. A grande sacada de Zacarias foi personificá-la. Maria e Isabel não teriam conseguido sozinhas, pois mulher não tinha voz, tampouco credibilidade pra sustentar um negócio desses. Daí nasceram João Batista e Jesus, tendo o primeiro batizado o segundo, coroando com sucesso uma empreitada que surgiu ao redor do fogo, com um sacerdote e duas mulheres. A José, a história  já chegou pronta, coube a ele só aceitar. Zacarias era sacerdote e visionário. Matou dois coelhos, a gravidez de Maria e de Isabel, ambas do mesmo anjo Gabriel e garantiu a curto prazo uma história ótima pra contar na taberna, e a longo prazo, um lugar na história.

Ou é isso, ou um anjo desceu do céu e emprenhou duas primas só com uma zoiada.

Acontece muito.

Fonte: Lucas 1:5-25, 26-38, 39-45.

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